Fédon
Platão, 360 a.C.
À noite Sócrates vai beber o veneno, e passa o dia inteiro discutindo com os amigos se a alma sobrevive ao corpo. Quatro provas, duas objeções fortes e uma conversa sobre o que fazer quando desmorona um argumento que parecia sólido. É um livro sobre um homem para quem a verdade importa mais do que o consolo.
Para quem é
Para quem quer ver como Sócrates discutiu sobre a alma e a morte no último dia de sua vida e aprender a pôr à prova as próprias convicções sem perder a confiança no raciocínio.
Quando o prazer ou a dor é mais intenso, a alma humana considera o objeto desse sentimento o mais claro e o mais verdadeiro, mas não é assim.
Ele foi ver um amigo à beira da morte e não conseguiu ter pena dele
Na cidade de Fliunte, um morador local, Equécrates, encontra Fédon, o jovem que esteve com Sócrates na prisão de Atenas no seu último dia. Equécrates pede que ele conte tudo em ordem. Platão escreveu o diálogo “Fédon” na forma desse relato.
Fédon começa por um sentimento que ele mesmo não consegue explicar. Foi ver um amigo à beira da morte e não sentiu pena dele. Sócrates se mantinha tão destemido e falava com tanta calma que parecia feliz. Mas também não havia a alegria habitual de uma conversa filosófica. O dia inteiro os amigos ora riam, ora choravam, e Apolodoro, o mais impressionável deles, perdeu completamente o controle.
De manhã, tiraram as correntes de Sócrates. Xantipa, sua esposa, estava sentada ao lado dele com o filho no colo e, ao ver os amigos, gritou que aquela era a última vez que ele falava com eles. Depois, Sócrates esfregou a perna onde estivera a corrente e se admirou: o prazer e a dor parecem opostos, mas sempre vêm um atrás do outro. Se Esopo estivesse ali, disse ele, teria composto uma fábula sobre como o deus não conseguiu reconciliá-los e os amarrou pelas cabeças.
Logo os amigos vão perguntar por que ele espera a morte com tanta calma. Sócrates vai prometer defender-se diante deles melhor do que diante dos juízes e vai confessar que tem uma boa esperança. Depois, ele vai demonstrar, e os amigos, duvidar, e Platão não esconde nenhum golpe contra os argumentos do mestre. Pela frente estão quatro provas da imortalidade da alma, duas rachaduras nelas e uma lição sobre o que fazer quando desmorona o pensamento em que tudo se apoiava.
O filósofo passa a vida inteira treinando para morrer
Sócrates começa com uma ideia ousada: o verdadeiro filósofo passa a vida inteira desejando a morte, então por que lamentar quando ela chega? Símias ri: na terra dele, as pessoas diriam que os filósofos de fato querem morrer e merecem bem isso. Sócrates responde que as pessoas têm razão nas palavras, mas não entendem de que morte se trata.
Primeiro, ele combina com Símias o que é a morte: a separação entre a alma e o corpo. Depois, pergunta se o corpo ajuda a buscar a verdade. A visão e a audição, diz ele, dão testemunhos imprecisos, e os outros sentidos, piores ainda. O corpo exige comida, adoece, enche a pessoa de desejos, medos e fantasias vazias. E, mesmo quando aparece tempo para pensar, o corpo invade o pensamento e o desvia.
Daí a conclusão de Sócrates: pensamos melhor quando dependemos menos do corpo. Ninguém viu a justiça e a beleza com os olhos; elas só podem ser captadas pelo pensamento. Então o filósofo passa a vida recolhendo aos poucos a alma em si mesma, e é exatamente isso o treino para morrer. Seria absurdo passar a vida se preparando para isso e se assustar quando a morte chega.
O ponto mais agudo diz respeito à coragem. As pessoas comuns, observa Sócrates, são corajosas por medo: enfrentam a morte porque temem um mal ainda maior. E são moderadas por intemperança: abrem mão de alguns prazeres porque não querem perder outros. É uma troca de medo por medo e de prazer por prazer, como quem troca moedas. A verdadeira moeda, para Sócrates, é uma só: o discernimento. Sem ele, da coragem e da justiça resta apenas uma sombra.
Trazendo isso para os dias de hoje, e isto já é uma leitura prática da Livria, aguentar um trabalho detestado só por medo de ficar sem dinheiro ainda não é coragem, e sim cálculo: um medo venceu o outro.
Cebes concorda com quase tudo, mas aponta um medo comum: e se a alma, ao sair do corpo, se dispersar no mesmo dia, como fumaça? Para responder a isso são necessárias provas, e Sócrates se dispõe a apresentá-las.
Sobre o autor
Platão foi um filósofo ateniense e discípulo de Sócrates. Escrevia suas obras em forma de diálogo, e no “Fédon” conta o último dia do mestre pela boca de seu amigo Fédon.
Todos os livros do autor: Platão
Conceitos do livro
- Sócrates
- Ideia
- Penélope
- Homero
- Odisseu
- Fliunte: Pequena cidade da Grécia antiga, no Peloponeso. É lá que, no enredo do diálogo, Fédon conta a morte de Sócrates.
- Fédon: Jovem amigo e discípulo de Sócrates, que estava com ele na prisão no último dia. No diálogo, ele é o narrador, e seu nome deu título ao diálogo.
- Equécrates: Morador de Fliunte que pede a Fédon que conte o último dia de Sócrates. De vez em quando, ele interrompe o relato com suas perguntas.
- Apolodoro: Amigo de Sócrates, pessoa muito impressionável. No diálogo, ele chora o dia inteiro e, no fim, é quem soluça mais alto.
- Xantipa: Esposa de Sócrates. Na manhã do último dia, ela está sentada ao lado dele na prisão, com o filho no colo.
- Críton: Velho amigo de Sócrates, ateniense. No diálogo, ele cuida das questões práticas e fecha os olhos de Sócrates depois da morte.
- Esopo: Autor grego antigo de fábulas, histórias curtas com uma lição, quase sempre sobre animais.
- Símias: Interlocutor de Sócrates vindo de Tebas e, junto com Cebes, o principal debatedor do diálogo. É ele quem levanta a objeção da alma como harmonia do corpo.
- Cebes: Interlocutor de Sócrates vindo de Tebas, amigo de Símias. Sócrates o chama de homem difícil de convencer com o primeiro argumento. É dele a objeção do tecelão e do manto.
- Lira: Instrumento de cordas da Grécia antiga, tocado dedilhando ou golpeando as cordas.
- Reminiscência: No “Fédon”, a ideia de Sócrates de que, quando aprendemos, recordamos um conhecimento que a alma tinha antes de nascer e esqueceu ao nascer. É uma doutrina de Sócrates na exposição de Platão, não um termo científico.
- Harmonia: Para os gregos antigos, um som bem combinado, o acordo entre as partes. No diálogo, é a afinação das cordas da lira e, na objeção de Símias, a proporção correta entre as partes do corpo.
- Misologia: Ódio aos raciocínios. Palavra com que Sócrates, no “Fédon”, chama a desconfiança em relação a todos os argumentos, nascida da decepção com alguns deles.
- Anaxágoras: Filósofo grego antigo do século V antes da nossa era. Ensinava que tudo no mundo é ordenado pela inteligência.
- Tártaro: Nos mitos gregos antigos, o abismo mais profundo debaixo da terra. No mito de Sócrates, para lá correm os rios subterrâneos e vão as almas dos que cometeram os crimes mais graves.
- Onze: Colegiado de onze magistrados atenienses encarregado da prisão e da execução das sentenças de morte.
- Asclépio: Deus grego antigo da medicina. Faziam-lhe sacrifícios em agradecimento pela cura.
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