Prisioneiros da geografia
Tim Marshall, 2015
Por que a China e a Índia, vizinhas enormes, quase nunca entraram em guerra? O jornalista britânico Tim Marshall passou muitos anos escrevendo sobre guerras, dos Bálcãs à Síria. Ele explica a política mundial pelo mapa das montanhas, dos rios e dos mares. Depois deste livro, as notícias sobre países distantes vão ficar mais fáceis de entender.
Para quem é
Para quem acompanha o noticiário e não entende por que os países agem de um jeito e não de outro. E para todos que gostam de mapas, história e viagens.
A terra em que vivemos sempre nos moldou.
A tempestade de areia que parou um exército
Outono de 2001, norte do Afeganistão. O jornalista britânico Tim Marshall chegou ali vindo do Tadjiquistão: atravessou de jangada o rio da fronteira. Ele ia ao encontro das tropas que lutavam contra o movimento Talibã. A união dessas tropas se chamava Aliança do Norte. Aviões americanos já voavam lá em cima, e todos esperavam o ataque a Cabul.
Foi então que chegou uma tempestade de areia, a mais forte da vida dele. O ar ficou amarelo-mostarda, e por trinta e seis horas nada se mexeu, a não ser a areia. Os satélites americanos mais avançados não podiam ajudar em nada. Depois caiu uma chuva forte, e a areia virou lama. O ataque parou. Segundo Marshall, a todos, do presidente dos EUA ao soldado no terreno, só restava esperar.
Marshall trabalhou por muitos anos como correspondente de guerra nos Bálcãs, no Afeganistão e na Síria. Foi de casos assim que nasceu o livro dele. A ideia principal é esta: a terra em que um povo vive limita os seus governantes mais do que se costuma pensar. Rios, montanhas, desertos e mares definem o que um país pode e o que não pode fazer. Ao mesmo tempo, o autor não vê a geografia como a única causa. Segundo ele, ela não decide tudo, mas é dela que as pessoas mais se esquecem.
Veja um exemplo do livro. A China e a Índia têm uma longa fronteira em comum e populações enormes. Era de esperar que vizinhos assim entrassem em guerra com frequência. Mas, tirando uma batalha em 1962, que durou um mês, elas nunca guerrearam. Entre elas está o Himalaia, as montanhas mais altas do mundo, e levar um grande exército através delas é quase impossível.
A seguir, você vai olhar para o mundo com os olhos de Marshall. Vai descobrir por que a Rússia teve medo da sua planície durante séculos, para que a China precisou do mar e como os rios deixaram os Estados Unidos ricos. Vai ver o que acontece quando uma fronteira é traçada a lápis e o que muda quando o gelo do Ártico derrete. O livro saiu em 2015, e tudo nele está dito do jeito que o autor via o mundo naquela época. Vamos começar pelo maior país do mundo.
A planície por onde os inimigos sempre chegavam
No século XIII, os mongóis conquistaram a Rus de Kiev, e o jovem Estado russo se deslocou para o nordeste, rumo a Moscou. O novo Estado, o Grão-Ducado de Moscou, segundo Marshall, era indefeso. Ao redor não havia montanhas, nem desertos, nem grandes rios. Para todos os lados se estendia a planície, e o inimigo podia chegar de qualquer direção.
Quem encontrou a saída foi Ivan, o Terrível, que governou a partir de 1533. Marshall chama o método dele de ataque como forma de defesa: primeiro fortalecer a casa e depois empurrar a fronteira para mais longe. No seu reinado, a Rússia avançou para o leste até os Urais, para o sul até o mar Cáspio e para o norte até o Círculo Polar. No século seguinte, ela cruzou os Urais e chegou ao oceano Pacífico. Assim o país ganhou profundidade estratégica: um espaço enorme para onde é possível recuar enquanto o inimigo gasta as forças no caminho.
A principal fraqueza continuou no oeste. Ali fica a Planície do Norte da Europa, uma terra plana que vai da França até os Urais. Marshall a compara a uma fatia de pizza. A ponta estreita da fatia é a Polônia, onde a planície tem só cerca de 300 milhas de largura. Já junto às fronteiras da Rússia a fatia se alarga para mais de 2000 milhas, e defender uma linha assim é difícil até para um grande exército.
Por essa planície chegaram à Rússia os poloneses em 1605, os suecos em 1708, os franceses em 1812 e os alemães em 1914 e em 1941. Mas, como escreve o autor, por esse lado a Rússia nunca foi conquistada. Os exércitos de Napoleão e, depois, de Hitler marcharam tanto tempo até Moscou que as suas linhas de abastecimento se esticaram demais.
O segundo problema é o mar. A Rússia não tem um porto que dê direto para o oceano aberto e não congele no inverno. Murmansk fica congelado vários meses por ano, e Vladivostok fica preso no gelo cerca de quatro meses. E transportar cargas por água é muito mais barato do que por terra. O autor também explica assim por que Sebastopol é tão importante para Moscou: segundo ele, é o único grande porto de águas quentes de verdade da Rússia.
A conclusão de Marshall soa quase como uma sentença. Os tsares, os comunistas e os governantes de hoje olham para o mesmo mapa. Segundo ele, o mapa com que Ivan, o Terrível, lidava é exatamente o mesmo que Vladimir Putin tem diante de si.
Sobre o autor
Tim Marshall é um jornalista britânico que por muitos anos cobriu guerras nos Bálcãs, no Afeganistão e na Síria. Escreve sobre como a geografia influencia a política mundial.
Todos os livros do autor: Tim Marshall
Conceitos do livro
- Napoleão
- Han
- Jefferson
- Mississippi
- Luisiana
- Talibã: Um movimento armado do Afeganistão. Em 2001, ele controlava Cabul e lutava contra as tropas da Aliança do Norte.
- Aliança do Norte: Uma união de grupos armados afegãos que, em 2001, lutavam contra o movimento Talibã no norte do Afeganistão.
- Himalaia: A cadeia de montanhas mais alta do mundo. Ela se estende ao longo da fronteira entre a China e a Índia.
- Grão-Ducado de Moscou: O Estado russo com centro em Moscou, do qual nasceu a Rússia.
- Ivan, o Terrível: Ivan IV, o primeiro tsar russo. Governou a partir de 1533, e no seu reinado a Rússia se expandiu muito para o leste e para o sul.
- Profundidade estratégica: Um grande espaço dentro do país, para onde é possível recuar e onde o exército inimigo se esgota numa longa marcha.
- Planície do Norte da Europa: Uma terra plana que se estende da França, passando pela Alemanha e pela Polônia, até os montes Urais.
- Hitler: Adolf Hitler, ditador nazista da Alemanha. Em 1941, a Alemanha atacou a URSS.
- Porto de águas quentes: Um porto cuja água não congela no inverno, de modo que os navios podem navegar o ano inteiro.
- Putin: Vladimir Putin, presidente da Rússia na época em que o livro foi lançado.
- Kitty Hawk: Um porta-aviões americano, um navio de guerra enorme de onde decolam aviões.
- Planície do Norte da China: Uma grande planície fértil junto ao rio Amarelo e ao Yangtzé, onde nasceu a civilização chinesa. Os chineses a chamam de Planície Central.
- Gobi: Um grande deserto no norte da China e no sul da Mongólia.
- Tibete: Uma região de grandes altitudes no sudoeste da China, junto ao Himalaia. É lá que nascem os maiores rios da China.
- Geopolítica: Um olhar sobre as relações entre os países a partir da sua geografia: montanhas, rios, mares, clima e recursos. “Geopolítica do medo” é uma expressão do autor.
- Estreito de Malaca: Uma estreita passagem marítima entre a Malásia, Singapura e a Indonésia, por onde passa uma parte enorme do comércio marítimo da Ásia.
- Birmânia: O antigo nome de Mianmar, um país do Sudeste Asiático no litoral do golfo de Bengala.
- Adams: Henry Adams, historiador americano do século XIX.
- Zambeze: O quarto rio mais longo da África. Ele atravessa seis países e deságua no oceano Índico.
- Cataratas Vitória: Uma das maiores quedas-d’água do mundo, no rio Zambeze.
- Sykes: Sir Mark Sykes, diplomata britânico. Em 1916, junto com o francês Georges-Picot, dividiu em segredo o Oriente Médio em zonas de influência.
- Haifa: Uma cidade portuária no litoral do mar Mediterrâneo, hoje em Israel.
- Kirkuk: Uma cidade no norte do Iraque.
- Georges-Picot: François Georges-Picot, diplomata francês, parceiro de Sykes no acordo secreto de 1916.
- Império Otomano: O império turco com capital em Istambul. Até a Primeira Guerra Mundial, ele dominava a maior parte do Oriente Médio.
- Mossul: Uma cidade no norte do Iraque. No tempo dos otomanos, esse era o nome de uma província inteira.
- Curdos: Um povo que vive nas montanhas onde se encontram o Iraque, a Turquia, o Irã e a Síria e que não tem um Estado próprio reconhecido.
- Sunitas: Seguidores do maior ramo do islã. A divisão com os xiitas começou em 632, depois da morte do profeta Maomé.
- Basra: Uma cidade portuária no sul do Iraque. No tempo dos otomanos, esse era o nome de uma província inteira.
- Xiitas: Seguidores do segundo maior ramo do islã. Acreditam que a comunidade deveria ter sido liderada pelos descendentes de Ali, genro do profeta Maomé.
- Oberdorfer: Don Oberdorfer, historiador e jornalista americano, escreveu sobre a Coreia.
- Paralelo: Uma linha no mapa que dá a volta na Terra de oeste a leste. O paralelo 38 divide a Coreia em Norte e Sul.
- Estado Islâmico: Um grupo terrorista que, em 2014, proclamou o seu próprio Estado em parte das terras do Iraque e da Síria.
- Passagem do Noroeste: A rota marítima do oceano Atlântico para o Pacífico pelos estreitos gelados junto à costa norte do Canadá.
- Amundsen: Roald Amundsen, explorador polar norueguês. Foi o primeiro a atravessar a Passagem do Noroeste.
- Dorsal de Lomonosov: Uma cordilheira submarina no fundo do oceano Ártico, que se estende da Sibéria até o Polo Norte.
- Plataforma continental: A parte rasa do fundo do mar junto à costa: o prolongamento do continente debaixo d’água.
- Convenção da ONU sobre o Direito do Mar: Um tratado internacional que define quais partes do mar e do seu fundo pertencem a qual país.
- Conselho do Ártico: Um fórum dos oito países árticos, onde eles discutem os assuntos comuns do Ártico.
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