Sexo sagrado: a magia e o caminho do erótico divino
Gabriela Herstik, 2022
E se a palavra “profano” um dia não significasse “sujo”, mas apenas “que está fora do templo”? A escritora e bruxa praticante Gabriela Herstik vê na sexualidade não um motivo de vergonha, mas uma prática espiritual que começa pela relação consigo mesmo. O livro fala dos seus rituais, das cartas de tarô como espelho dos desejos e do consentimento, sem o qual, segundo ela, não existe sexo sagrado.
Para quem é
Para quem quer parar de ter vergonha da própria sexualidade e enxergar nela uma parte da vida espiritual. E para todos que têm curiosidade de saber como uma bruxa moderna une ritual, cartas de tarô e consentimento.
Quem não aceita os seus limites simplesmente se beneficiava do fato de você não os ter.
O que um dia significou “fora do templo”
O pai de Gabriela Herstik é rabino há quase quarenta e cinco anos. Certa vez, numa conversa, ele comentou que a palavra “profano” no começo significava apenas “o que está fora do templo”. O sentido de “sujo, impuro” foi atribuído a ela pela sociedade mais tarde.
Para Herstik, essa ideia virou uma chave. Se o próprio corpo for considerado um templo, então não sobra nada fora do templo, e tudo pode se tornar sagrado, inclusive o sexo. Herstik pratica bruxaria desde os treze anos e serve à Deusa do amor. Neste livro, ela descreve o seu caminho: a sexualidade como prática espiritual, em que se encontram o prazer, o ritual e uma conversa honesta consigo mesma.
A ideia principal dela é simples. A sua sexualidade pertence a você e a mais ninguém, por isso o caminho não começa pelo parceiro, mas pela relação com você mesmo.
O livro é esotérico: cartas, deusas, energia e feitiços. Aqui, tudo isso é recontado como a fé e a experiência da autora, e não como ciência. Pela frente estão sete passos, da vergonha herdada dos outros até uma intimidade em que dois enxergam mais do que cada um sozinho. Vamos começar pela carta que muita gente que joga tarô tem medo de tirar.
A Torre desaba para a Estrela brilhar
Herstik propõe começar com uma pergunta honesta. Quais crenças sobre sexo são suas, e quais foram escolhidas no seu lugar pela cultura, pela família e pela religião? A vergonha quase sempre está entre as segundas: ninguém a escolhe, a gente a recebe de herança.
Para esse trabalho, ela usa duas cartas de tarô. A décima sexta carta se chama a Torre: um raio atinge uma torre, e do alto dela cai uma coroa de ouro. Muita gente não gosta dessa carta, mas Herstik a lê de outro jeito: cai a coroa falsa, e o poder sai das mãos daquilo que não o mereceu. Na prática dela, a Torre representa as proibições alheias que fazem a pessoa entregar a sua força ao parceiro, à igreja ou às regras da família.
Logo depois vem a décima sétima carta, a Estrela: sob estrelas brilhantes, uma figura nua derrama água de dois jarros. É a bússola interior que chega quando as velhas crenças foram embora. O caminho pode começar sob a Torre, promete Herstik, mas no fim do livro você vai se tornar a Estrela.
Ela aconselha atravessar a própria destruição com muita compaixão por si mesmo, como se você fosse o seu melhor amigo. Se vier o pânico, não se recrimine, mas deixe o sentimento passar pelo corpo: dê uma caminhada, pule, chore. A vergonha vai voltar em ondas, mas a cada vez com menos poder.
O primeiro ritual do livro se apoia nas mesmas cartas. Você escreve uma frase sobre o que está deixando ir e outra sobre o que está chamando. Da primeira se faz um amuleto, que afasta, e da segunda, um talismã, que atrai.
Sobre o autor
Gabriela Herstik é escritora, pratica bruxaria desde os treze anos e é autora dos livros “Inner Witch” e “Bewitching the Elements”. Escreveu sobre magia, moda e sexualidade para a VOGUE, a Glamour e a Cosmopolitan.
Todos os livros do autor: Gabriela Herstik
Conceitos do livro
- Eremita
- profano: Vem de uma palavra latina que significava “o que está diante do templo”, ou seja, fora do santuário. Hoje se chama assim o que é mundano, não sagrado.
- tarô: Baralho de 78 cartas conhecido desde o século XV. É usado para adivinhação, meditação e rituais, e as 22 cartas principais, os arcanos maiores, representam as grandes etapas da vida.
- Torre: Décima sexta carta dos arcanos maiores do tarô: uma torre atingida por um raio. Para Herstik, é o símbolo da destruição das crenças falsas sobre o sexo.
- Estrela: Décima sétima carta dos arcanos maiores do tarô: uma figura nua sob as estrelas derrama água de dois jarros. Para Herstik, é o sinal de uma bússola interior e de viver no próprio corpo.
- amuleto: Na prática de Herstik, um objeto que afasta o indesejado, por exemplo a vergonha.
- talismã: Na prática de Herstik, um objeto que atrai o desejado, por exemplo a autoconfiança.
- BDSM: Nome geral de práticas baseadas num jogo voluntário com poder, restrições e sensações. Nessa comunidade, a regra principal é combinar tudo antes e obter consentimento.
- autodesejo: Conceito de Herstik: o desejo e a excitação que a pessoa encontra em si e para si. Ela o chama de irmã mais velha e ousada do amor-próprio.
- limites intocáveis: É assim que Herstik chama aquilo que a pessoa com certeza não quer experimentar. Já os limites comuns descrevem aquilo em que ela se sente confortável.
- êxtase: O grau mais alto de arrebatamento. Herstik o distingue do prazer: o prazer vive no corpo, e o êxtase leva a pessoa para além de si mesma.
- Goerlich: Stefani Goerlich, terapeuta sexual certificada e autora do livro “The Leather Couch”. Herstik a entrevistou para este livro.
- glamour: Para Herstik, é tudo o que muda a aparência por fora: roupa, perfume, maquiagem, joias. Ela considera o glamour parte da prática mágica.
- aterramento e proteção: Exercício de visualização com que Herstik abre todo ritual: a pessoa imagina raízes que descem para a terra, uma luz que vem de cima e uma esfera protetora à sua volta.
- grimório: Livro ou diário do mago, onde se anotam rituais, feitiços e os resultados deles.
- Virgem: Sexto signo do zodíaco. Herstik o liga à imagem da deusa virgem, que pertence a si mesma.
- Héstia: Deusa grega do lar, uma das deusas virgens veneradas.
- Ísis: Deusa-mãe e feiticeira egípcia, esposa do deus Osíris.
- Enamorados: Sexta carta dos arcanos maiores do tarô: duas pessoas num jardim do paraíso e um anjo acima delas. Para Herstik, é o símbolo do caminho da união divina.
- Haven: Esposa de Sebastian. O casal entrevistado por Herstik aparece no livro só pelos primeiros nomes.
- Sebastian: Marido de Haven. Herstik cita esse casal como exemplo de relacionamento consciente.
- Pollack: Rachel Pollack, escritora americana e estudiosa do tarô, autora do livro clássico “78 graus de sabedoria”.
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