O Monte Cinco
Paulo Coelho, 1996
O jovem profeta Elias foge de Israel para escapar da ira da rainha e encontra abrigo na casa de uma viúva, numa cidade fenícia estrangeira. Ele tem pela frente uma montanha da qual ninguém volta, um amor e uma guerra que não vai conseguir impedir. É uma história sobre como atravessar o inevitável e começar a construir de novo.
Para quem é
Para quem passou por uma perda ou por uma virada brusca e não sabe como seguir em frente. E para todos que querem entender onde termina o destino e começa a própria escolha.
O medo acaba onde começa o inevitável.
O carpinteiro que ouvia anjos
Elias tem vinte e três anos e é carpinteiro em Israel. Desde criança ele tinha visões e via anjos, mas os pais não queriam para o filho o destino de profeta e o mandaram aprender um ofício. As visões foram se calando aos poucos. Parecia haver pela frente uma vida comum: uma oficina própria e o ofício.
Depois a vida se quebra. Jezabel, a princesa fenícia que se tornou esposa do rei israelita Acab, leva para o país a adoração ao deus Baal e manda executar os profetas que não renegarem o Deus único. Um anjo ordena a Elias que fuja, e ele sai de casa.
Assim começa “O Monte Cinco”, de Paulo Coelho, romance de 1996. A sua base vem do Antigo Testamento: no Primeiro Livro dos Reis há um relato curto sobre como o profeta Elias viveu na casa de uma viúva pobre, na cidade fenícia de Sarepta. Coelho chamou essa cidade de Akbar e construiu, em torno de algumas linhas da Escritura, um mundo inteiro: com sacerdotes e um governante, com uma montanha que é proibido subir, com amor e com guerra.
É um romance sobre uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, surge para todo mundo: o que fazer quando aconteceu algo que não dá mais para desfazer? Elias não vai encontrar a resposta de imediato e vai pagar caro por ela. Vamos percorrer o caminho dele juntos, passo a passo.
O estrangeiro às portas da cidade
Elias chega a Akbar sem dinheiro, sem amigos e sem direito a proteção. Ali ele é duplamente estrangeiro: um israelita numa cidade onde os fenícios veneram muitos deuses, e um inimigo da princesa fenícia Jezabel. O costume da hospitalidade não permite expulsá-lo. Mas o governante de Akbar mantém o fugitivo por perto por cálculo: Jezabel pode pagar pela cabeça do profeta.
O anjo mandou Elias procurar abrigo na casa de uma viúva, e ele encontra a casa dela. A mulher tem um filho pequeno e quase nada de mantimentos. Na Escritura, esse encontro é descrito em poucas palavras: a viúva ainda tinha um punhado de farinha e um pouco de azeite para o último pão, e mesmo assim alimenta o desconhecido. Depois disso, a farinha e o azeite nunca acabam na casa dela.
Repare em como Elias se comporta na primeira parte do romance. Ele quase não decide nada sozinho. Os anjos dizem aonde ir, e ele vai; mandam esperar, e ele espera. Ele precisa provar aos moradores da cidade que veio em paz, e o seu sonho é um dia voltar para Israel.
Esse estado é conhecido de muita gente que a vida tirou do rumo de sempre. A pessoa parece um passageiro num barco levado pela correnteza: não rema, só se agarra com força à borda e espera para ver onde vai parar. A obediência ajuda a sobreviver nos primeiros dias, quando simplesmente não há forças para decisões próprias. Não há nada de vergonhoso nisso.
Mas Coelho constrói o livro inteiro como um caminho da obediência para a escolha. Guarde a imagem deste Elias que espera ordens: no fim do romance, ele vai ser outra pessoa.
Se agora você está numa cidade estranha, num emprego novo ou depois de um rompimento difícil, pergunte-se com honestidade: estou só esperando passar ou já estou vivendo? Esperar passar por algum tempo é normal. O importante é perceber o momento em que é hora de pegar os remos de novo.
Sobre o autor
Paulo Coelho é um escritor brasileiro, autor de “O Alquimista”. Escreve romances-parábola sobre a fé, o destino e a busca do próprio caminho.
Todos os livros do autor: Paulo Coelho
Conceitos do livro
- Elias: Profeta do Antigo Testamento, protagonista do romance. Na Bíblia, a sua história é contada no Primeiro e no Segundo Livro dos Reis; Coelho o descreve como um jovem carpinteiro que foge da ira de Jezabel.
- Profeta: Pessoa que, segundo a fé, transmite às pessoas as palavras de Deus e avisa sobre o que está por vir.
- Jezabel: Princesa fenícia, esposa do rei israelita Acab. Segundo a Bíblia, impôs em Israel o culto a Baal e perseguiu os profetas do Deus único.
- Acab: Rei de Israel no século IX antes de Cristo, marido de Jezabel. No reinado dele, segundo a Bíblia, a adoração a Baal se espalhou pelo país.
- Baal: Uma das principais divindades dos fenícios e de outros povos do antigo Oriente Próximo.
- Sarepta: Cidade fenícia no litoral do Mediterrâneo, entre Sídon e Tiro, onde, segundo a Bíblia, Elias morou na casa de uma viúva. Hoje, no lugar dela, fica Sarafand, no Líbano.
- Akbar: É assim que Coelho chama, no romance, a Sarepta bíblica. O nome foi inventado pelo autor.
- Fenícios: Povo antigo que vivia na costa leste do Mediterrâneo, no território do atual Líbano. Eram famosos pela navegação e pelo comércio.
- Quinta Montanha: A montanha acima de Akbar onde, segundo a crença dos moradores do romance, vivem os deuses. É uma imagem criada por Coelho: na Bíblia, ela não existe.
- Sumo sacerdote: O principal servidor do templo, que dirige os rituais. No romance, é o adversário de Elias em Akbar.
- Biblos: Uma das cidades mais antigas da Fenícia, no território do atual Líbano. No romance, é de lá que chega uma escrita nova e simples.
- Escrita fenícia: Escrita antiga de 22 sinais, que registrava apenas os sons consonantais. Dela vieram os alfabetos grego e latino.
- Assírios: O povo da antiga Assíria, uma potência da Mesopotâmia conhecida pelo exército forte e pelas campanhas de conquista.
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