A armadilha da felicidade. Como parar de sofrer e começar a viver
Russ Harris, 2007
Por que a busca pela felicidade tantas vezes nos deixa mais infelizes? Russ Harris mostra como as tentativas de se livrar de sentimentos desagradáveis nos puxam cada vez mais para o fundo, como areia movediça. Você vai examinar quatro mitos sobre a felicidade, aprender a olhar para os pensamentos pesados de fora e construir a vida em torno do que realmente importa para você.
Para quem é
Para quem cansou de lutar contra a ansiedade, a tristeza e os pensamentos pesados. E para quem tem, aparentemente, tudo de bom na vida, mas, por algum motivo, não sente alegria.
A mente adora contar histórias. Na verdade, ela nunca para.
Tudo está bem, mas falta alegria
Imagine a Marina. Ela tem um trabalho interessante, um apartamento aconchegante e amigos com quem nunca se entedia. Visto de fora, parece que ela não tem do que reclamar. Mas, à noite, uma ansiedade sem motivo nenhum toma conta dela, e Marina fica com raiva de si mesma: por que isso agora? Ela lê artigos sobre pensamento positivo, tenta espantar os pensamentos ruins, promete a si mesma que a partir de segunda-feira vai ficar mais calma. E a ansiedade só aumenta.
Russ Harris tem certeza de que o problema não é que a Marina tenha algum defeito. Ela caiu num lugar onde muita gente cai, e esse lugar tem nome: a armadilha da felicidade. Acreditamos que os bons sentimentos devem estar conosco quase o tempo todo e que os ruins precisam ser vencidos. Passamos anos nessa luta, e a própria luta traz uma dor nova. É um círculo vicioso: quanto mais você insiste em buscar o bem-estar, mais ele se afasta.
Harris procura a saída numa abordagem chamada “terapia de aceitação e compromisso”, ou ACT, na sigla. Ela foi desenvolvida pelo cientista americano Steven Hayes junto com colegas. A abordagem tem dois objetivos. O primeiro: aprender a lidar com pensamentos e sentimentos dolorosos de um jeito que eles machuquem menos e decidam menos por você. O segundo: construir a vida em torno do que realmente importa para você.
Pela frente estão os quatro mitos que sustentam a armadilha e a explicação de por que lutar contra os sentimentos se parece com areia movediça. Você vai descobrir como olhar para os pensamentos de fora, como desligar o interruptor interno da luta, por que vale a pena notar o que está acontecendo agora mesmo e por que os valores funcionam como uma bússola. Este livro não promete que os sentimentos ruins vão desaparecer para sempre. Ele ensina a viver uma vida plena mesmo quando eles estão por perto. Vamos começar.
Os quatro mitos que sustentam a armadilha
Olhe para a publicidade, para as fotos das férias dos outros, para os sorrisos nas revistas. É fácil acreditar que todo mundo está satisfeito com a vida e que há algo errado com você. Harris começa o livro desmontando essa imagem. Na visão dele, ela se apoia em quatro mitos, e cada um soa como bom senso.
• A felicidade é natural. Parece que uma pessoa normal está quase sempre satisfeita. Harris discorda: ansiedade, tristeza e dúvidas visitam as pessoas o tempo todo, e isso é uma parte comum da vida, não uma falha.
• Se você está mal, é porque algo está quebrado. Do primeiro mito nasce o segundo: se todos são felizes, a sua tristeza indica um defeito. Harris não vê nos sentimentos dolorosos um defeito, e sim algo que acontece com qualquer ser humano vivo.
• Para viver melhor, é preciso se livrar dos sentimentos ruins. Mas tudo o que é realmente importante vem junto com experiências difíceis. Um relacionamento próximo, um novo emprego, o nascimento de um filho trazem alegria e, junto com ela, medo, cansaço e dúvidas.
• Pensamentos e sentimentos podem ser controlados. Aprendemos a mudar o mundo exterior: consertar, reorganizar, jogar fora. Harris acredita que é daí que nasce a certeza de que com o mundo interior vai dar certo do mesmo jeito. Mas lá o controle funciona muito pior do que parece. Num momento tranquilo, ainda dá para se distrair ou mudar o foco. Quanto mais forte o sentimento e quanto mais importante a situação para você, menos sobra desse poder.
Por que esses mitos são tão resistentes? Harris observa que a palavra “felicidade” tem dois sentidos. O primeiro: sentir-se bem, prazer, bom humor. Isso vem e vai, como o tempo lá fora, e não dá para segurar por muito tempo. O segundo: uma vida rica, plena e com sentido. Uma vida assim não promete sentimentos agradáveis a cada minuto: nela cabem todos os sentimentos, inclusive a dor.
A armadilha se fecha quando confundimos o primeiro com o segundo e corremos atrás de um sentimento em vez de uma vida. Harris propõe trocar de objetivo. Tente hoje se pegar acreditando em um desses mitos. Quando ouvir na cabeça “se estou triste, há algo errado comigo”, responda mentalmente, com calma: isso acontece com todas as pessoas, e não é motivo para se consertar.
Sobre o autor
Russ Harris é médico e psicoterapeuta. Nasceu na Inglaterra em 1966 e, desde 1991, vive na Austrália, onde trabalha em Melbourne. É um dos professores de terapia de aceitação e compromisso mais conhecidos do mundo, e “A armadilha da felicidade”, segundo a editora, vendeu mais de um milhão de exemplares e foi traduzido para mais de 30 idiomas.
Todos os livros do autor: Russ Harris
Conceitos do livro
- Armadilha da felicidade: Expressão de Harris que deu nome ao livro. É assim que ele chama o círculo em que as tentativas de se sentir bem o tempo todo e de se livrar dos sentimentos ruins só deixam a pessoa mais infeliz.
- Terapia de aceitação e compromisso: Abordagem psicológica, em inglês Acceptance and Commitment Therapy, ou ACT, na sigla. Ensina a não lutar contra pensamentos e sentimentos difíceis, e sim a abrir espaço para eles e agir de acordo com os próprios valores.
- Hayes: Steven Hayes, psicólogo americano, professor da Universidade de Nevada. Desenvolveu a terapia de aceitação e compromisso junto com colegas.
- Estratégias de controle: Termo do livro: qualquer tentativa de se livrar de pensamentos e sentimentos desagradáveis ou de evitá-los, por exemplo, distrair-se, fugir de situações difíceis, abafá-los com comida ou álcool, discutir com os próprios pensamentos.
- Desfusão: Uma das técnicas da ACT: a capacidade de dar um passo atrás em relação a um pensamento e ver nele palavras, e não uma verdade ou uma ordem. O pensamento pode continuar ali, mas perde o poder sobre as ações.
- Interruptor da luta: Imagem do livro. Um interruptor imaginário no fundo da consciência: quando está ligado, a pessoa trava uma guerra contra qualquer sentimento desagradável, e a esse sentimento se somam outros, por exemplo, a ansiedade por sentir ansiedade.
- Expansão: É assim que Harris chama a habilidade de dar ao sentimento desagradável um espaço no corpo, sem empurrá-lo para fora: notar a sensação, respirar em direção a ela e permitir que ela exista.
- Eu pensante: Conceito da ACT: a parte da consciência que raciocina, avalia, planeja e recorda. Ela é necessária, mas está sempre comentando o que acontece.
- Eu observador: Conceito da ACT: a parte da consciência que simplesmente nota pensamentos, sentimentos e sensações, sem avaliar nada. Na visão de Harris, ela permanece a mesma, aconteça o que acontecer por dentro.
- Contato com o presente: Um dos princípios da ACT: estar totalmente presente no que acontece agora, com abertura e interesse, em vez de viver dentro dos próprios pensamentos.
- Valores: Para Harris, são os desejos mais profundos de uma pessoa: como ser e como agir. Diferente de uma meta, um valor não pode ser riscado como um item de uma lista: só é possível seguir na direção dele.
- Ação guiada pelos valores: Princípio da ACT, em inglês committed action: dar passos concretos na direção dos próprios valores, mesmo quando o medo e as dúvidas estão por perto.
- Disposição: Na ACT, é a decisão de se permitir pensamentos e sentimentos desagradáveis, já que eles aparecem no caminho para o que importa. A disposição não exige que o desconforto seja agradável.
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