O animal feito para a intimidade. A ciência do amor, do sexo e da fidelidade
Justin Garcia, 2026
O serviço mais caro de um bordel legal de Nevada era a «experiência de namorada», por 20.000 dólares, e o sexo nem sempre fazia parte dele. O diretor do Instituto Kinsey explica por que a necessidade de intimidade vive separada do desejo sexual e às vezes é mais forte que ele, e como a tensão entre os dois gera tanto a felicidade quanto as traições. Você vai entender como escolher um parceiro, atravessar um término e manter a paixão por anos.
Para quem é
Para quem está num relacionamento e sente que falta alguma coisa, para quem procura alguém em aplicativos de namoro ou está passando por um término. E para todos que querem entender por que o amor e o sexo tantas vezes puxam para lados diferentes.
É possível deixar de amar, e é normal viver o luto dessa perda. E aprender uma nova canção e amar de novo faz parte da nossa natureza.
O serviço mais caro, em que o sexo nem sempre está incluído
No deserto de Nevada, a uma hora de carro de Las Vegas, fica a cidadezinha de Pahrump, com dois bordéis legais. Justin Garcia foi até lá com colegas em nome da ciência: estudar as trabalhadoras e os clientes. A guia os levou até o cardápio de serviços. A linha mais cara, a partir de 20.000 dólares, era a «Baleia Branca», a «experiência de namorada» completa. O sexo nem sempre fazia parte dela. Em compensação, segundo a guia, o cliente receberia abraços que jamais esqueceria.
O que havia de mais caro para comprar no bordel podia dispensar o sexo. As pessoas compravam intimidade: a sensação de ser visto, ouvido e conhecido.
Garcia é biólogo evolucionista, o oitavo e o mais jovem diretor de toda a história do Instituto Kinsey e consultor científico do serviço de namoro Match. Junto com a falecida Helen Fisher, conduziu por muitos anos o estudo sobre os solteiros americanos Singles in America. Sua ideia principal: a vontade de intimidade é separada do desejo sexual e mais forte do que nos acostumaram a pensar. Os seres humanos foram feitos para viver em casais estáveis, em geral um de cada vez. Os cientistas chamam isso de monogamia social. Mas a fidelidade sexual a uma só pessoa não está necessariamente inscrita em nós. Dessa tensão nascem tanto os melhores quanto os mais dolorosos momentos do amor.
Ela também explica o nosso tempo. Nos Estados Unidos, quase 40% dos adultos estão solteiros, cerca de uma em cada quatro pessoas no mundo se sente sozinha em qualquer momento, e a solidão cresce até entre quem está num relacionamento. A seguir, você vai ver por que o cérebro se confunde nos aplicativos de namoro, o que leva à traição, por que um término se parece com uma crise de abstinência e como a paixão vive por décadas. Se você já se perguntou por que é possível se sentir só ao lado de alguém, já olha para a própria vida com mais honestidade do que muita gente. Vamos começar.
Sexo e intimidade vivem separados no cérebro e podem não coincidir
Num voo para Vancouver, Garcia começou a conversar com a passageira ao lado. O nome dela era Ginny. Alguns anos antes, a mãe dela tinha sido diagnosticada com doença de Alzheimer, e Ginny passou muito tempo sem conseguir sair da depressão, até começar a ir dançar à noite. Quando o assunto chegou ao décimo aniversário de casamento, Ginny suspirou. Ela ama o marido, mas os dois vivem cada vez mais vidas paralelas, e ela já nem lembra quando foi a última vez que transaram.
Existe amor, mas falta algo essencial. Garcia explica assim: aquilo que vivemos como um único sentimento forte é montado no cérebro a partir de partes. Pesquisas com ressonância magnética funcional (RMf), um exame que mostra quais áreas do cérebro estão trabalhando mais, encontram na intimidade romântica vários sistemas ao mesmo tempo: o do apego, o da recompensa e o do desejo sexual. Quando eles funcionam juntos, a pessoa sente calor, compreensão e segurança. Mas essas partes também podem funcionar separadamente. Dá para ter prazer no sexo, na amizade ou na confiança sem que nada disso forme intimidade.
Imagine um acorde no piano. Cada nota soa também sozinha, mas o acorde só se ouve quando as teclas são pressionadas juntas. Entre Ginny e o marido, soam a vida em comum e o apego, mas a nota do desejo está calada há muito tempo.
Também acontece o contrário. Um amigo de Garcia terminou com o namorado, mas por meses continuou fazendo «festas do pijama» com ele: dormiam na mesma cama e se abraçavam vendo filmes, embora já não houvesse nada sexual entre os dois. Isso saciava a fome de intimidade deles, mas dificultava que os dois começassem novos relacionamentos. Garcia ressalta a diferença: aliviar a tensão sexual é relativamente fácil, enquanto a intimidade traz outro fluxo de hormônios, mais raro, e encontrá-lo é mais difícil.
Daí vem o primeiro passo, que Garcia considera o começo de tudo: entender o que exatamente está faltando para você. Desejo, confiança, conversas ou toque? Numa pesquisa nacional da equipe dele, mais de um terço dos americanos que vivem a dois disseram que o parceiro não os toca o suficiente. Às vezes vale começar não por uma grande conversa, mas por uma mão no ombro.
Sobre o autor
Justin Garcia é biólogo evolucionista, diretor executivo do Instituto Kinsey da Universidade de Indiana e principal consultor científico da empresa Match, para a qual conduz o estudo anual Singles in America.
Todos os livros do autor: Justin Garcia
Conceitos do livro
- Ginny
- Aron
- Amor companheiro
- Dave
- Pahrump: Pequena cidade no deserto de Nevada, a cerca de uma hora de carro de Las Vegas, conhecida por seus dois bordéis legais.
- Kinsey: Alfred Kinsey, biólogo americano chamado de avô da sexologia ocidental. O Instituto Kinsey da Universidade de Indiana foi fundado em 1947 e estuda o sexo, o amor e os relacionamentos; Garcia o dirige desde 2019.
- Match: Empresa americana de namoro on-line, dona do site e do aplicativo Match.com.
- Fisher: Helen Fisher, antropóloga americana, pesquisadora do amor e do cérebro, coautora de Garcia por muitos anos no estudo Singles in America. Morreu em 2024.
- Singles in America: Estudo anual sobre adultos solteiros nos Estados Unidos que a Match conduz com cientistas desde 2010.
- Monogamia social: Viver como um casal estável, em geral com um parceiro de cada vez, com uma casa em comum e o cuidado compartilhado dos filhos. Não significa necessariamente fidelidade sexual.
- Doença de Alzheimer: Doença incurável do cérebro em que a memória e o pensamento se deterioram aos poucos.
- RMf: Ressonância magnética funcional: um exame que, pelo fluxo de sangue rico em oxigênio, mostra quais áreas do cérebro estão trabalhando mais.
- Conroy-Beam: Daniel Conroy-Beam, psicólogo americano que estuda como as pessoas escolhem seus parceiros.
- Atribuição errônea da excitação: Efeito em que a pessoa atribui a agitação causada pelo medo ou pela novidade não à sua causa real, mas, por exemplo, a quem está ao lado.
- Dutton: Donald Dutton, psicólogo canadense, coautor do experimento de 1974 com a ponte suspensa instável.
- Catron: Mandy Len Catron, escritora. Em 2015, numa coluna do New York Times, ela contou como respondeu às 36 perguntas de Aron e se apaixonou.
- Amor lento: Conceito de Helen Fisher: os solteiros de hoje levam mais tempo para conhecer o parceiro e demoram mais para assumir compromissos e se casar.
- Hrdy: Sarah Blaffer Hrdy, antropóloga americana que estuda o papel das mães e a criação compartilhada dos filhos na evolução humana.
- Vínculo de par: Uma ligação emocional sólida entre dois indivíduos que vivem e agem como um casal. É assim que os biólogos chamam o que, nas pessoas, chamamos de apego romântico.
- Efeito Coolidge: Fenômeno da biologia: a chegada de uma nova parceira pode devolver mais depressa ao macho a disposição para acasalar. O nome vem de uma anedota sobre o presidente dos Estados Unidos Calvin Coolidge.
- DRD4: Gene do receptor de dopamina D4. Sua variante longa é associada à busca por novidade e risco.
- Selterman: Dylan Selterman, psicólogo americano, pesquisador de relacionamentos, coautor de Garcia num trabalho sobre os motivos da traição.
- Gibões: Pequenos primatas antropoides do Sudeste Asiático. Além dos humanos, são os únicos antropoides que vivem em casais.
- Jen: Prima de Garcia, sua única prima. Durante treze anos ela lutou contra um câncer no cérebro.
- Holt-Lunstad: Julianne Holt-Lunstad, psicóloga americana que estuda como as relações com outras pessoas afetam a saúde e a duração da vida.
Todos os conceitos
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