SPQR: Uma história da Roma Antiga
Mary Beard, 2015
Como uma cidadezinha sem nada de especial no centro da Itália virou uma potência em três continentes? A historiadora britânica Mary Beard conta mil anos de história romana, da lenda de Rômulo até o ano 212, quando todos os habitantes livres do império viraram cidadãos. Ela procura o outro lado de cada história famosa e mostra que a força de Roma estava em saber transformar estrangeiros em gente sua.
Para quem é
Para quem quer entender como uma cidadezinha virou o Império Romano. E para todos que têm curiosidade de saber como os historiadores separam uma lenda famosa daquilo que aconteceu de verdade.
Em certo sentido, sabemos mais sobre Roma do que os próprios romanos sabiam.
Como uma cidadezinha à beira do rio virou Roma
Imagine uma cidade onde vivem mais de um milhão de pessoas. É Roma em 63 antes de Cristo, a maior cidade da Europa. Ela governa terras da Espanha até a Síria. E um dia ela foi uma cidadezinha sem nada de especial no centro da Itália.
Como ela virou uma potência enorme? Os próprios romanos já quebravam a cabeça com isso. A historiadora britânica Mary Beard deu ao seu livro o nome de “SPQR”. Essas quatro letras significam “o Senado e o Povo de Roma”. Senado era o nome da assembleia de uns seiscentos homens que antes tinham ocupado cargos altos. O povo eram todos os homens adultos com direitos de cidadão.
Beard não admira Roma sem reservas e procura o outro lado de cada história. A ideia principal dela é simples. Roma não cresceu porque os romanos eram, por natureza, mais guerreiros que os vizinhos, nem por um plano traçado de antemão. Ela cresceu porque sabia transformar estrangeiros em gente sua, e porque passou séculos discutindo o que é a liberdade.
Primeiro vamos ver uma conspiração que conhecemos só pela boca do vencedor. Depois vamos conhecer o irmão morto no dia da fundação da cidade e a potência que perdia batalhas, mas não guerras. Também vai aparecer o primeiro imperador, que, à primeira vista, não aboliu nada. E a história termina em 212, quando todos os habitantes livres do império viraram romanos num só dia. Vamos começar pela conspiração.
A conspiração que conhecemos pela boca do vencedor
No outono de 63 antes de Cristo, Roma esperava um golpe. A conspiração, segundo se dizia, estava sendo preparada por Lúcio Sérgio Catilina. Ele vinha de uma família nobre e antiga, mas estava quase falido. As eleições em Roma custavam fortunas, e Catilina tinha perdido duas vezes seguidas a eleição para cônsul. Havia dois cônsules, eleitos por um ano, e não existia cargo mais alto no Estado. Segundo o adversário dele, Catilina prometia perdoar as dívidas de todo mundo, matar os principais políticos e pôr fogo na cidade.
Esse adversário era o cônsul daquele ano, Marco Túlio Cícero, o famoso orador. Ele tinha vindo da cidadezinha de Arpino e subido na vida graças aos seus discursos nos tribunais. No verão daquele mesmo ano, Cícero apareceu nas eleições com uma escolta armada, e por baixo da toga dele dava para ver uma armadura. Beard escreve que é como se hoje um político chegasse ao parlamento de terno e com uma metralhadora. Em 8 de novembro, Cícero fez sua acusação no senado, e naquela mesma noite Catilina fugiu da cidade. Os cúmplices dele foram presos, e Cícero os executou sem julgamento. O próprio Catilina morreu pouco depois em combate. Cícero foi chamado de pai da pátria. Mas cinco anos depois o povo votou pelo exílio de qualquer pessoa que tivesse executado um cidadão romano sem julgamento. Cícero teve que ir embora, e a casa dele em Roma foi destruída.
O relato mais detalhado desses dias foi deixado pelo próprio Cícero. Para Beard, a questão não é se ele exagerou o perigo, e sim o quanto ele o exagerou. O relato dele parece uma briga de vizinhos em que, através da parede, só dá para ouvir a voz de um deles.
Para ouvir o outro lado, Beard olha para as moedas. O desenho delas mudava todo ano naquela época, e pelo número de moldes usados para cunhá-las os estudiosos calculam quantas moedas foram feitas. No fim dos anos 60, a cunhagem caiu bruscamente. Faltava dinheiro vivo, e os credores exigiam as dívidas de volta. Então o pessoal de Catilina podia ter motivos reais para o desespero.
Beard chama esse jeito de ler de leitura “a contrapelo”. Isso quer dizer encontrar as rachaduras no relato do vencedor e preenchê-las com outros testemunhos. Daí dá para tirar um hábito simples. Quando você ouvir uma história escandalosa sobre um vilão, vale perguntar quem a contou e o que ganhou com isso.
Sobre o autor
Mary Beard é historiadora do mundo antigo. Os editores deste livro a chamam de maior especialista do mundo em história antiga. Aqui ela fala de Roma para o grande público e se apoia nas descobertas dos últimos cinquenta anos.
Todos os livros do autor: Mary Beard
Conceitos do livro
- Senado
- Cícero
- República
- Graco
- César
- SPQR: Abreviação das palavras latinas Senatus PopulusQue Romanus, “o Senado e o Povo de Roma”. Era assim que os romanos indicavam, de forma curta, o poder legítimo do seu Estado.
- Catilina: Lúcio Sérgio Catilina, aristocrata romano acusado em 63 a.C. de conspirar contra o Estado. Morreu em combate.
- Cônsul: O cargo eletivo mais alto da República Romana. Havia dois cônsules, eleitos por um ano.
- Arpino: Uma cidade pequena a uns 100 quilômetros de Roma, terra natal de Cícero.
- Rômulo: O fundador lendário e primeiro rei de Roma. O nome dele vem do nome latino da cidade, Roma.
- Remo: O irmão gêmeo de Rômulo. Segundo a lenda, Rômulo o matou no dia da fundação da cidade.
- Lívio: Tito Lívio, historiador romano que viveu no tempo de Augusto. Escreveu uma enorme história de Roma desde a fundação da cidade.
- Tibre: Rio da Itália Central, às margens do qual fica Roma.
- Sabinos: Um povo da Itália Central, vizinho da Roma primitiva.
- Horácio: Quinto Horácio Flaco, poeta romano do século I a.C.
- Alexandre, o Grande: Alexandre da Macedônia, rei da Macedônia no século IV a.C., que conquistou terras da Grécia até a Índia.
- Canas: Lugar no sul da Itália onde, em 216 a.C., Aníbal arrasou o exército romano.
- Aníbal: General de Cartago que, no fim do século III a.C., atravessou os Alpes com elefantes e passou muito tempo em guerra com Roma dentro da Itália.
- Cartago: Cidade do norte da África, no território da atual Tunísia, a principal rival de Roma. Foi destruída pelos romanos em 146 a.C.
- Tribuno: Tribuno da plebe, um magistrado eleito que defendia os interesses dos cidadãos comuns e podia vetar decisões de outros magistrados.
- Mário: Caio Mário, general romano do fim do século II a.C., eleito cônsul sete vezes.
- Rubicão: Um rio pequeno no norte da Itália de hoje. Naquela época, marcava a fronteira da Itália.
- Augusto: O primeiro imperador romano, sobrinho-neto e filho adotivo de César. O nome significa mais ou menos “venerável”. Morreu no ano 14 d.C.
- Calígula: Apelido do imperador Caio, que governou de 37 a 41. Significa “botinha”: quando ele era criança, os pais o levavam às campanhas militares vestido com um pequeno uniforme de soldado.
- Pompeia: Cidade do sul da Itália, soterrada na erupção do Vesúvio no ano 79. Por isso, as casas, os bares e as inscrições nas paredes se conservaram tão bem lá.
- Timgad: Cidade romana do norte da África, no território da atual Argélia, fundada no ano 100 como colônia para soldados aposentados.
- Caracala: Imperador romano que governou de 211 a 217. Em 212, deu a cidadania romana a todos os habitantes livres do império.
- Zoilo: Caio Júlio Zoilo, ex-escravo e, ao que tudo indica, secretário de Júlio César. Mais tarde virou um benfeitor rico da sua cidade natal, Afrodísias, na Ásia Menor.
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