Sucesso e sorte. O fator sorte e o mito da meritocracia
Robert H. Frank, 2016
Por que o mais talentoso tão raramente acaba vencendo? O economista Robert Frank sobreviveu a uma parada cardíaca só porque uma ambulância por acaso estava por perto, e decidiu entender como pequenos acasos determinam grandes desfechos. Você vai descobrir por que as pessoas bem-sucedidas não percebem a própria sorte, quanto isso custa a todos e por que pensar na sorte torna as pessoas mais generosas.
Para quem é
Para quem trabalha muito e se orgulha dos próprios resultados. Para quem tem certeza de que cada um recebe o que merece e para quem duvida disso.
O número médio de pernas das pessoas é um pouco menor que dois. Então a maioria das pessoas de fato tem mais pernas do que a média.
A ambulância que estava por perto
Numa manhã fria de sábado de 2007, o economista Robert Frank jogava tênis na pequena cidade americana de Ithaca. O parceiro dele era o amigo e coautor, o psicólogo Tom Gilovich. No meio do jogo, o coração de Frank parou. Era uma parada cardíaca súbita: uma falha dos sinais elétricos do coração, à qual a maioria das pessoas não sobrevive.
Mas, a poucas centenas de metros da quadra, dois carros tinham acabado de bater. Duas ambulâncias foram enviadas para lá, e só uma foi necessária, porque ninguém se feriu gravemente. A segunda, que normalmente ficava de plantão a oito quilômetros dali, chegou até Frank em poucos minutos. Mais tarde, ele diria que está vivo apenas graças a um puro acaso.
Frank é professor de economia em Cornell e há muitos anos escreve sobre como os mercados funcionam e por que as pessoas gastam dinheiro de um jeito e não de outro. Em 2016, publicou este livro. A ideia dele é simples e incômoda: talento e trabalho importam, mas o acaso decide muito mais do que estamos dispostos a admitir. Principalmente onde milhares de pessoas fortes disputam um único prêmio.
Daqui em diante, não vamos falar só de sorte. Frank mostra por que as pessoas bem-sucedidas não a percebem, quanto essa cegueira custa a todos os outros e como, pelas contas dele, é possível viver melhor quase sem tirar nada de ninguém. Você vai ver as suas próprias vitórias sob uma nova luz e talvez passe a ser um pouco mais gentil com você e com os outros.
O quadro que um ladrão tornou famoso
Hoje todo mundo conhece a “Mona Lisa”, e parece que não poderia ser de outro jeito: Leonardo, o sorriso enigmático, um gênio. Mas Frank lembra que, durante séculos, ela foi um dos muitos quadros valorizados do Louvre, e não o quadro mais importante do mundo. Tudo mudou em agosto de 1911. Um ex-funcionário do museu, Vincenzo Peruggia, tirou o quadro do Louvre, e por mais de dois anos os jornais do mundo inteiro escreveram sobre o desaparecimento.
Quando o quadro voltou, já era o mais famoso do mundo. E as explicações apareceram depois do fato: claro, o segredo está no sorriso, na técnica, no mistério. Visto depois do fato, qualquer sucesso parece inevitável. Os psicólogos chamam essa armadilha de viés retrospectivo. Quando o desfecho é conhecido, temos a impressão de que ele poderia ter sido previsto de antemão.
Aqui Frank se apoia no sociólogo Duncan Watts. Num experimento descrito por Watts, as pessoas ouviam músicas desconhecidas numa loja de música artificial e viam o que os outros baixavam. A qualidade de uma música influenciava o destino dela apenas em parte. Muito dependia de quais músicas, por acaso, tinham sido as primeiras a acumular downloads, porque depois as pessoas iam atrás da escolha dos outros.
Daí vem a primeira lição do livro. No relato do triunfo de alguém, geralmente não há lugar para o acaso, porque esse relato é construído do fim para o começo. Mas em cada uma dessas histórias houve bifurcações em que tudo poderia ter tomado outro rumo.
Sobre o autor
Robert Frank é um economista americano, professor da Universidade Cornell. Escreve sobre economia comportamental e sobre mercados em que o vencedor leva tudo.
Todos os livros do autor: Robert H. Frank
Conceitos do livro
- Gates
- Buffett
- Meritocracia
- Friedman
- Ithaca: Pequena cidade no norte do estado de Nova York, onde fica a Universidade Cornell.
- Gilovich: Thomas Gilovich, psicólogo americano, professor da Universidade Cornell, estuda como as pessoas julgam o mundo e tomam decisões. Amigo e coautor de Frank.
- Parada cardíaca súbita: Estado em que o coração de repente para de bombear sangue por causa de uma falha nos seus sinais elétricos. Sem socorro nos primeiros minutos, a pessoa geralmente morre.
- Cornell: A Universidade Cornell, uma das principais universidades privadas dos Estados Unidos, na cidade de Ithaca. Frank ensina economia lá há muitos anos.
- Peruggia: Vincenzo Peruggia, italiano, ex-funcionário do Louvre que em 1911 roubou a “Mona Lisa”. O quadro foi encontrado mais de dois anos depois, em Florença.
- Viés retrospectivo: Tendência a considerar um acontecimento previsível depois que o seu desfecho já é conhecido.
- Watts: Duncan Watts, sociólogo americano que pesquisa redes e a forma como as pessoas influenciam as escolhas umas das outras.
- Cranston: Bryan Cranston, ator americano que interpretou Walter White na série “Breaking Bad”.
- Cusack: John Cusack, ator americano conhecido por filmes do fim dos anos oitenta e dos anos noventa.
- Broderick: Matthew Broderick, ator americano de teatro e cinema.
- Cook: Philip Cook, economista americano, professor da Universidade Duke. Escreveu com Frank um livro sobre mercados em que o vencedor leva tudo (1995).
- O vencedor leva tudo: Expressão de Frank e Cook para mercados em que o participante um pouco melhor fica com quase toda a recompensa, e o quase tão bom fica quase sem nada.
- Seles: Monica Seles, tenista, ex-número um do mundo. Em 1993, foi atacada por um espectador durante uma partida e ficou mais de dois anos sem competir.
- Graf: Steffi Graf, tenista alemã, uma das mais vitoriosas da história, principal rival de Seles.
- Davidai: Shai Davidai, psicólogo que, junto com Gilovich, estudou por que as pessoas se lembram mais dos obstáculos do que da ajuda.
- Keltner: Dacher Keltner, psicólogo americano, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, estuda o poder e as emoções.
- Yuezhou Huo: Economista. Frank cita um experimento dele sobre como pensar nas causas externas da sorte influencia a generosidade.
- Sociedade Americana de Engenheiros Civis: Organização profissional de engenheiros dos Estados Unidos. Avalia regularmente o estado da infraestrutura do país.
- Cascata de gastos: Expressão de Frank: quando os mais ricos gastam mais, os que vêm logo abaixo na renda também passam a gastar mais, e assim por diante, descendo pela cadeia.
- Imposto progressivo sobre o consumo: Imposto cobrado não sobre a renda, mas sobre o valor gasto: renda menos poupança. Quanto maiores os gastos, maior a alíquota. Proposta de Frank, polêmica entre os economistas.
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