Os delírios das multidões. Por que as pessoas enlouquecem todas juntas
William Bernstein, 2021
Por que uma multidão acerta o peso de um boi com margem de um por cento e depois sai comprando ações que não valem nada? William Bernstein acompanha cinco séculos de loucuras coletivas, da Münster sitiada à quebra da bolsa de 1929 e ao “Estado Islâmico”. Ele mostra que as bolhas financeiras e a espera pelo fim do mundo nascem da mesma raiz e ensina a perceber quando a multidão começa a arrastar você também.
Para quem é
Para quem já comprou alguma coisa só porque todo mundo estava comprando. E para todos que querem entender por que pessoas inteligentes acreditam em bolhas na bolsa e no fim do mundo próximo.
Nada abala tanto o equilíbrio da alma e turva tanto o juízo quanto ver um amigo enriquecer.
O especialista em loucuras que não viu a sua
Em 1841, o jornalista escocês Charles Mackay tinha 27 anos e publicou um livro sobre as loucuras coletivas do passado: a febre da bolsa e a crença no fim do mundo próximo. Poucos anos depois, a Inglaterra foi tomada pela febre das ferrovias. De 1843 a 1848, a extensão das ferrovias inglesas passou de 2.000 para 5.000 milhas.
Na época, Mackay editava um jornal em Glasgow. No outono de 1845, escreveu nele que a euforia das ferrovias não tinha nada em comum com as velhas fraudes, porque a sua base era ampla e sólida. Na segunda edição do seu livro, ele mencionou essa mania só numa nota de rodapé curta.
O analista financeiro e historiador William Bernstein tira desse caso a conclusão de que o problema não é a burrice. Para ele, o ser humano, por natureza, imita os outros, adora histórias envolventes e busca status. E as manias de dinheiro e a espera pelo fim do mundo, ainda segundo ele, nascem da mesma raiz: da esperança de melhorar de vida, neste mundo ou no outro.
Pela frente, temos um boi e um pote de jujubas, açúcar com o rótulo “cianeto”, o rei das ferrovias e um pregador que marcou a data do fim do mundo. Vamos começar pelo boi.
Um boi, um pote de jujubas e respostas em voz alta
No outono de 1906, numa feira de gado em Plymouth, o cientista Francis Galton, primo de Charles Darwin, fez um experimento. Cerca de 800 pessoas compraram bilhetes de 6 pence e tentaram adivinhar quanto o boi pesaria depois de abatido e limpo. Quando todos os palpites foram postos em ordem, o que ficou no meio era de 1.207 libras. O boi pesava 1.198. A multidão errou por menos de um por cento.
Um detalhe importante: os participantes escreviam as respostas em cartões, cada um por si, e não combinavam nada, porque cada um queria ganhar o prêmio sozinho.
Mais tarde, o financista Joel Greenblatt repetiu o experimento com alunos de uma escola do Harlem. No pote havia 1.776 jujubas. Quando as crianças escreveram os palpites em silêncio, a média deu 1.771. Quando cada uma disse o seu número em voz alta, a média caiu para 850.
A conclusão de Bernstein é esta: quanto mais as pessoas se comunicam, pior elas julgam. Um grupo é inteligente enquanto cada um pensa com a própria cabeça. É como um coro em que cada um canta a sua parte pela partitura. Basta os cantores se ajustarem ao vizinho, e o coro inteiro escorrega para a mesma nota desafinada.
Daí sai um hábito simples. Antes de ler previsões, avaliações e comentários dos outros, anote a sua própria estimativa.
Sobre o autor
William Bernstein é um médico neurologista americano que se tornou analista financeiro e autor de livros sobre história da economia e investimentos.
Todos os livros do autor: William Bernstein
Conceitos do livro
- Galton
- Hudson
- Greenblatt
- Núcleo accumbens
- Miller
- Viés de confirmação
- Bolha
- Fisher
- Estado Islâmico
- Bayes
- Mackay: Charles Mackay (1814–1889), poeta e jornalista escocês. Em 1841, publicou um livro sobre os delírios coletivos e as loucuras das multidões que é reeditado até hoje.
- Kindleberger: Charles Kindleberger (1910–2003), historiador da economia americano, autor de um livro famoso sobre manias, pânicos e quebras financeiras.
- Solomon Asch: Psicólogo americano (1907–1996). Nos anos 1950, fez experimentos que mostraram como a pressão do grupo leva uma pessoa a concordar com uma resposta errada.
- Paul Rozin: Psicólogo americano da Universidade da Pensilvânia, estuda o nojo e o pensamento mágico.
- Melanie Green: Psicóloga americana. Junto com Timothy Brock, estudou como o envolvimento com uma história muda as opiniões do leitor.
- Timothy Brock: Psicólogo americano da Universidade Estadual de Ohio, estudou com Melanie Green o poder das narrativas.
- Joaquim de Fiore: Monge e abade italiano do século XII, da Calábria. Dividia a história em três eras e esperava a chegada da terceira, a era de ouro.
- Anabatistas: Corrente protestante do século XVI. Seus seguidores batizavam só adultos, e não bebês.
- Münster: Cidade no noroeste da Alemanha. Em 1534–1535, foi governada por anabatistas que esperavam o fim do mundo.
- Jan Bockelson: Também chamado de João de Leiden. Líder dos anabatistas que se tornou rei de Münster. Executado em 1536.
- Esquema Ponzi: Fraude em que os investidores antigos são pagos com o dinheiro dos novos. Leva o nome do golpista Charles Ponzi, que viveu no século XX.
- Himes: Joshua Himes, pastor de Boston. Transformou as pregações de Miller num movimento de massa, com jornais e reuniões em tendas.
- Festinger: Leon Festinger (1919–1989), psicólogo social americano, criador do conceito de “dissonância cognitiva”.
- Dorothy Martin: Americana que, em 1954, previu um dilúvio destruidor e a salvação num disco voador. Festinger observou o grupo dela.
- Dissonância cognitiva: A sensação desagradável de quando as crenças de uma pessoa entram em choque com os fatos ou umas com as outras.
- Wason: Peter Wason (1924–2003), psicólogo britânico, autor do experimento com a trinca de números 2, 4, 6.
- Minsky: Hyman Minsky (1919–1996), economista americano. Achava que a calmaria no mercado empurra, por si só, as pessoas para dívidas cada vez mais arriscadas.
- RCA: Radio Corporation of America, empresa americana de rádio fundada em 1919. Nos anos 1920, era a queridinha da bolsa.
- Raskob: John Raskob (1879–1950), diretor financeiro da DuPont e da General Motors. Em 1928, assumiu a direção do comitê nacional do Partido Democrata.
- Darby: John Nelson Darby (1800–1882), clérigo anglo-irlandês, fundador do movimento dos Irmãos de Plymouth e da doutrina das dispensações.
- Dispensacionalismo: Doutrina protestante que divide a história em eras e espera o arrebatamento dos fiéis ao céu, sete anos de tribulação e a volta de Cristo.
- Armagedom: O lugar da batalha final entre o bem e o mal, mencionado no Apocalipse de João. O nome está ligado à antiga cidade de Megido.
- Lindsey: Hal Lindsey, pregador americano formado pelo Seminário de Dallas, autor do livro “The Late Great Planet Earth”, sobre o fim do mundo próximo.
- Dabiq: Cidadezinha no noroeste da Síria. Segundo uma das tradições islâmicas, ali vai acontecer uma batalha antes do fim do mundo. Esse também era o nome da revista de propaganda do “Estado Islâmico”.
- Maniqueísta: É como se chama a visão que divide o mundo em bem puro e mal puro. A palavra vem da antiga doutrina do persa Mani.
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